Os pulinhos e as esquerdas

por Raphael Faé



No dia em que o Senado Federal sabatinou a indicação de André Mendonça ao cargo de ministro do STTEF - Supremo Tribunal Terrivelmente Evangélico Federal -, a primeira-dama, Michele Bolsonaro, foi flagrada dando pulinhos de alegria antes de abraçar o mais novo integrante do Poder que seu marido, um misto de nazista com blogueiro de moda e animador de auditório frustrado, nas horas vagas Presidente da República, adotou como alvo para fomentar ódio e popularidade junto ao seus seguigados.

Como não podia deixar de ser, a EBTL - Esquerda Brasileira Terrivelmente Liberal -, que só sabe dançar se o ritmo for à direita fascista, saiu - nas redes sociais, claro - em ampla revolta contra os pulinhos da First-Lady (aliás, desculpem-me, agora que me dei conta que escrevo em lacaio português), worldwide renowned como MissChequed.

De um lado da esquerda, a molecada que Lenin bateu pouco, esbravejamentos de que a religião é o ópio de burros e domínios de malas e faias.

De outro, da galera mais conciliadora, tipo social-democracia alemã da Segunda Internacional, dizia que não é bem assim, assado, e nada mais que assim.

Pois bem, também queremos dar alguns pulinhos, mas Terrivelmente Revolucionários.


Pulinho 1: O “Estado Democrático de Direito” - este da “Constituição” -, surge a partir das relações materiais de produção capitalistas e da necessidade de se proteger a propriedade privada e garantir o regime de acumulação do capital. Ou seja, Estado e Direito modernos surgem sob o influxo do capitalismo, vão sofrer as contradições do próprio capitalismo e, no fim das contas, estão a serviço do capital.


Pulinho 2: Todos os direitos sociais previstos na “lei” - ou seja, a lei burguesa -, como educação, saúde, moradia, lazer, transporte, trabalho, etc., não eram para estar lá. Foi um acidente da Revolução Russa e outras. Estão lá porque foram ARRANCADOS da classe demonizante e CONQUISTADOS pela classe a demonizar na base do peito e da raça.


Pulinho 3: O governo pode ser de esquerda ou de direita, dos trabalhadores ou do patrão, evangélico ou ateu… O Estado moderno é a forma política do capital. Já falei isso, mas falo de novo pra memorizar.

Pulinho 4: o STF pode ser terrivelmente ateu, muçulmano, hindu, espírita, zecapadoginiano ou evangélico. O problema é o STF tal qual concebido pela institucionalidade liberal-burguesa, como última trincheira institucional do capital, onde o culto à propriedade privada encontra seus sumo-sacerdotes e sua reafirmação sagrada e ontológica. Pode haver uns terrivelmente piores do que outros, mas todos são igualmente terríveis (para o povo, claro).


Pulinho 5: Falando especificamente de cristãos, se todos fossem realmente de Jesus, Terrivelmente de Nazaré, não sobrava pedra sobre pedra do Templo de Brasília. Jesus de verdade morreu como povão, na quebrada, como bandido, como quem incomoda a classe ruminante, como contestador da ordem e dos poderosos.


Pulinho 9 (sim, sou brasileiro, é final de semana, tô meio bebo, meu filho tá dodói, tô cuidando dele e de mim): religião tem tudo e nada a ver com tudo isso. O “tudo a ver” vocês já sabem. É o lixo edirpiano, malafaniano, filhadaputano, etcriano. Mas também tem o “nada a ver”, que é a tradição profética. Para a esquerda liberal, continuar os pulinhos, basta digitar #prophetclivesmatters


Pulinho 6 (to bebo, mas nem tanto): respeitem a tradição profética. Ela já deu muito sangue real pra intelectual PBTM - Pequeno-Burguês Terrivelmente Marxista - falar qualquer coisa. É a galera que incendeia, que traz fogo e divisões, que vai nos confins do mundo, que põe o pé no barro, que é sal e semente em terra fértil, que é amor eficaz como Camilo Torres, que é Canudos como Conselheiro, que é Zumbi como Palmares, que é Dona Maria, a senhora sua bisavó, avó, mãe, tia ou irmã que fez das tripas coração para você ser quem você é.


Pulinho 7.2: numa sociedade dividida em classes, a religião também é perpassada por esses meandros: há o deus dos senhores, e o deus dos oprimidos. O papel da esquerda é incendiar o primeiro e respeitar o segundo. Mas, quando a própria esquerda é liberal, ela também precisa ser incendiada junto ao primeiro. Pior que religioso vendilhão é intelectual pequeno-burguês pagando de último biscoito histórico do pacote revolucionário, e vice-versa.


Pulinho algum número aí, talkey!?: Reunir tradição profética da religião e política é o que Paulo Freire dizia sobre o binômio denuncia/anúncio. Denunciar os ídolos e anunciar os deuses. Denunciar a miséria e anunciar a bonança. Denunciar o mal e anunciar o mundo de justiça, amor e fraternidade. É claro, os pulinhos da Fists-Lady-in-the-tobs-of-the-President também denunciam e anunciam. Denunciam qualquer possibilidade de emancipação social e anunciam um futuro do passado, que já deveria ter sido consumido pelo fogo revolucionário e profético há muito tempo.


Pulinho fim, até porque não pulei em momento algum e nem tenho vontade disso: o problema não é religião. O problema é o uso político da religião para implantação de uma pauta reacionária a favor do capital e da acumulação do capital. Se há uma esquerda no Brasil, ela deve invocar o Jesus que gritou “hipócritas”, “sepulcros caiados”, “vendilhões”, e, por isso, morreu como um perigo real e imediato ao poderio romano e judaico.


A hora que a esquerda entender isso - dessa potência latente na religião - os pulinhos da classe dominante e seus vassalos estão com o tempo contado.

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