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  • Socialismo e Religião

    por Anton Pannekoek, 1907 I Se tentarmos encontrar uma explicação para a relação mútua entre socialismo e religião na atitude prática de porta-vozes religiosos e nos discursos e escritos de socialistas, acreditaremos facilmente que, neste aspecto, predominam um grande mal-entendido, confusão e contradições internas. De um lado vemos que muitos trabalhadores, quando se juntam às fileiras socialistas, também descartam qualquer fé teológica que possuam e frequentemente combatem a religião ferozmente; ademais, o conjunto dos princípios que constituem a base e a força do socialismo atual, e juntos formam uma concepção de mundo inteiramente nova, permanecem opostos à fé religiosa de forma irreconciliável. De outro lado, vemos adeptos fiéis do cristianismo, até padres, reivindicando o socialismo precisamente por conta de seus princípios cristãos e se reunindo sob a insígnia do movimento operário. E, o que é ainda mais significante, todos os agitadores e todos os programas de partidos socialistas internacionais declaram de forma unânime que a religião é um assunto de foro íntimo dos indivíduos, no qual os demais não devem interferir. Apesar disso, muitos padres e representantes oficiais das religiões combatem a social-democracia com muito zelo.(1) Eles argumentam que este movimento visa meramente exterminar a fé, martelam ardilosamente sobre as teses de nossos maiores expoentes (Marx, Engels, Dietzgen) que fazem apontamentos críticos sobre a religião e defendem seu próprio materialismo enquanto teoria científica. Mais uma vez, camaradas em nossas próprias fileiras se opõem à divulgação de tais teses sob o argumento de que o programa do partido declarou a neutralidade para com a religião e prefeririam proibir a propagação das teses materialistas, que ferem os sentimentos de pessoas religiosas. Eles dizem que o objetivo de nosso movimento socialista é puramente econômico. A esse respeito estão corretos e não devemos falhar em repetir isso diversas vezes em refutação às mentiras dos pastores. Não desejamos inocular pessoas com uma nova fé, ou um ateísmo, mas sim desejamos provocar uma transformação econômica da sociedade. Desejamos substituir a produção capitalista pela socialista. Qualquer um pode perceber a viabilidade prática de tal produção coletiva e suas vantagens sobre a exploração capitalista, por razões que nada têm a ver com religião. Para esse fim queremos garantir o poder político da classe proletária, já que é indispensável enquanto meio para esse objetivo. A necessidade, ou ao menos o anseio, dessa transferência do poder político pode ser compreendida por qualquer trabalhador a partir de sua experiência política, sem qualquer cerimônia, independentemente de ser, em matéria de fé, um protestante, um católico, um judeu, ou um livre-pensador sem qualquer religião. Assim, nossa propaganda deve se dedicar exclusivamente a elucidar as vantagens econômicas do socialismo e tudo que possa contrariar os preconceitos das mentes religiosas deve ser evitado. Por mais óbvia que tal concepção possa ser, ao menos em sua primeira parte, ainda possui seus inconvenientes, e serão poucos os que concordarão com a última conclusão. Se estivesse correta, e se fosse nosso objetivo pregar as belezas do socialismo a todas as pessoas, então naturalmente deveríamos nos dirigir a todas as classes sociais, e em primeiro lugar às mais educadas. Mas a história do socialismo rejeitou por completo os utópicos sentimentalistas, que queriam fazer isso. Descobriu-se que as classes possuidoras não se importam com tais vantagens e que somente a classe proletária se tornou cada vez mais aberta a essa compreensão. Isso indica, por si só, que algo mais deve ser considerado do que meramente provar às pessoas a viabilidade prática de uma transformação econômica da sociedade. Tal transformação, e seu instrumento, a conquista dos poderes políticos pela classe operária, só pode ser o resultado de uma grande luta de classes. Mas para conduzir com sucesso essa luta de classes a sua conclusão é necessário organizar toda a classe operária, para despertar sua inteligência política, para dotá-la de um completo entendimento das forças internas que movem o mundo. Além disso, é necessário se familiarizar com a força e a fraqueza dos adversários da classe operária, de modo a fazer o melhor uso deles e para ser capaz de refutar suas influências de maneira enérgica, as quais podem debilitar a força interna e externa do exército organizado de proletários. Somente uma compreensão clara de todos os fenômenos políticos e sociais pode prevenir os atuais líderes e membros do movimento socialista de erros e passos em falso, que podem prejudicar seriamente a propaganda entre as massas ainda ignorantes. Apenas conhecimento profundo os capacitará para arrancar novas concessões de seus inimigos por suas táticas e beneficiar o proletariado. Se isso é um fato, que a maior quantidade de conhecimento e compreensão é exigida em nossas fileiras para o propósito de bem promover nossa luta, e se os escritos materialistas de nossos mentores tendem a aumentar tal inteligência, então envolveria grandes desvantagens tentar esconder e suprimir tais escritos e concepções apenas em razão de evitar um choque com os preconceitos das pessoas de saber limitado. Nossa teoria, a ciência socialista fundada por Marx e Engels, foi a primeira a nos fornecer nítidos vislumbres das diferentes inter-relações sociais, que influenciam nosso movimento. Portanto, para nós será necessário retornar a essa ciência para uma resposta satisfatória à questão da relação entre socialismo e religião. II Se desejamos decidir sobre nossa atitude quanto à religião, primeiramente será necessário à nossa ciência nos esclarecer a origem, a natureza e o futuro da religião. Tal esclarecimento, como em toda ciência, deve ser baseado em experiência e fatos. Atualmente percebemos que, em todos os países com um movimento socialista fortemente desenvolvido, o conjunto dos proletários com consciência de classe não possui religião, ou seja, eles não acreditam em nenhuma doutrina religiosa e não aderem a nenhuma delas. Isso parece, à primeira vista, ainda mais peculiar, já que essa multidão geralmente possui baixa escolaridade. De outro lado, as classes “educadas”, ou seja, a burguesia, retornam cada vez mais à fé, ainda que tenha existido entre elas um forte movimento antirreligioso. Parece, então, que crença ou descrença não são primordialmente um resultado de cultura, nível de conhecimento e esclarecimento. Os proletários socialistas são os primeiros entre os quais a irreligiosidade aparece como fenômeno de massa. Deve haver uma causa definida para isso, e se não se comprovar um fato meramente transitório, deve necessariamente resultar em uma restrição cada vez maior do campo da religião pelo socialismo. Já os partidários da religião frequentemente argumentam não ser o caso, pois segundo eles, a religião é algo maior do que uma mera fé teológica. A devoção a um ideal, a disposição de fazer sacrifícios por uma causa maior, a fé na vitória final do Bem – tudo isso dizem também significar religião. Nesse sentido o movimento socialista deve até ser chamado de profundamente religioso. É claro que não discutiremos minúcias sobre palavras. Diremos simplesmente que tal significado do termo religião não é o mais costumeiro. Sabemos muito bem que o proletariado socialista está repleto de grande e elevado idealismo, mas para eles isso não está associado a uma crença em um poder sobrenatural, que se supõe governar o mundo e guiar os destinos dos humanos. Nós utilizamos o termo religião apenas nesse último sentido, qual seja, enquanto crença em um deus. Agora nos permita perguntar de onde vem essa fé e o que significa. É óbvio que a fé em um poder sobrenatural que governa os humanos e o mundo, pode existir apenas na medida em que as forças que realmente controlam os processos na natureza e no homem sejam desconhecidas. Um Cafre,(2) trabalhando como carregador de bagagens em uma estação de trem da África do Sul e que subitamente escuta o telégrafo começar a emitir sinais, acredita haver um deus oculto ali dentro. Ele se curva profundamente perante o aparelho e diz respeitosamente: “Informarei o chefe imediatamente” (o operador de telégrafo). Essa concepção do homem sem instrução é bastante inteligível, assim como o fato de que os povos primitivos acreditavam que a natureza ao seu redor estava repleta de todo tipo de espíritos misteriosos. Em sua economia eles dependiam inteiramente da natureza. Muitas forças naturais e poderes desconhecidos ameaçavam seus trabalhos, enquanto outras lhes eram favoráveis, úteis, benéficas. Eles não possuíam nenhum meio de conhecimento ou controle sobre tais poderes. Esses lhes pareciam sobrenaturais, antropomórficos, forças com vontades próprias, e eles pretendiam influenciá-los com os meios de seus limitados horizontes mentais: preces, sacrifícios, ou, talvez, ameaças. O pouco conhecimento geral requerido por suas economias está intimamente conectado com suas concepções religiosas. Os sacerdotes devem sua grande influência precisamente ao fato de que são os portadores do conhecimento transmitido por tradição, de modo que são os mentores intelectuais da produção. Assim como em suas concepções de forças da natureza o conhecimento empírico elementar e precário é misturado com superstição fantástica, suas cerimônias religiosas formam uma mescla de ações necessárias à produção e ações completamente supersticiosas e inúteis. Povos civilizados já não são tão esmagadoramente influenciados pelas forças da natureza. Embora não signifique dizer que eram compreendidas cientificamente no início da civilização, os indivíduos já estão mais fora do alcance de sua influência direta. Seus métodos de produção e de trabalho tornaram-se tão desenvolvidos que as pessoas se sentem mais independentes dos eventos naturais e não estão tão desamparadas diante deles como os selvagens. Quando chegamos a um estágio posterior da civilização, à era do capitalismo, nos deparamos com um rápido desenvolvimento das ciências naturais, que investigam as forças e efeitos da natureza de forma sistemática e descobre seus segredos. Pela aplicação técnica dessas ciências, as forças da natureza inclusive estão a serviço da produção das necessidades da vida. Então, para o homem civilizado moderno, a natureza deixou de ter poderes misteriosos, que poderiam induzi-lo a acreditar em forças sobrenaturais. Tais espíritos do passado estão domesticados e colocados a seu serviço enquanto forças comuns da natureza, cujas leis e processos lhe são conhecidos. Mesmo assim constatamos que a classe que incorpora essa cultura e essa supremacia sobre a natureza permaneceu, ou tornou-se novamente, religiosa em sua maioria, com exceção de uma forte corrente temporária de materialismo burguês no século dezenove. Por que isso? Que razão eles têm para presumir a existência de uma regência sobrenatural dos destinos da humanidade? Em outras palavras, que forças existem que ainda afetam drasticamente a existência da burguesia e que permanecem desconhecidas em suas origens e naturezas e, portanto, podem ser consideradas forças misteriosas e sobrenaturais? Tais forças derivam da ordem social. De fato, o provérbio diz que “cada um é o capitão de sua própria alma”, mas na prática a maioria dos capitalistas pensa que isso não é verdade. Enquanto produtor independente, o capitalista pode fazer o seu melhor, ele pode cuidar de seu negócio de forma consciente e prudente, ele pode explorar completamente seus empregados sem nenhum sentimentalismo, ele pode manter seus gastos dentro de um limite apropriado, e não obstante os preços podem cair até que ele tenha que vender quase sem nenhum lucro, ou mesmo com prejuízo, e apesar de seus esforços o monstro diabólico da falência recai sobre ele. Ou seu negócio pode estar indo bem e ele pode estar acumulando dinheiro a ótimas taxas, quando subitamente uma crise o surpreende e engole todo o seu empreendimento. Por que isso acontece? Ele não sabe. Falta-lhe o conhecimento de economia política, que poderia esclarecê-lo sobre o fato de que o capitalismo necessariamente deve produzir tais forças sociais grandiosas que podem elevar o indivíduo à alta prosperidade, se ele for sortudo, mas que também pode destruí-lo. A origem dessas forças deve ser buscada no fato de que a produção é realmente social, mas apenas na forma e aparência a produção depende da iniciativa e controle privados. As fantasias individuais são de que ele trabalha de forma independente, mas ele precisa permutar seus produtos com outros e as condições de troca, preços e a possibilidades de permuta como um todo são decididas pela totalidade das condições sociais. A produção não é regulada conscientemente pela sociedade. Seu caráter social está acima da vontade da humanidade, tal qual as forças da natureza, e por essa razão leis sociais defrontam o indivíduo com a inevitabilidade e a cruel inexorabilidade das forças naturais. As leis dessa natureza artificial, de seu processo produtivo, são desconhecidas para ele, e por essa razão ele permanece diante delas da mesma forma que os selvagens diante das leis da natureza. Elas trazem destruição e miséria de muitas formas, ocasionalmente também trazem fortuna. Elas governam seu destino caprichosamente, mas ele não as conhece nem as compreende. O proletariado socialista se posiciona diante dessas forças com uma atitude diferente. É precisamente sua condição oprimida que o despoja de qualquer interesse de preservação do capitalismo e de encobrimento da verdade sobre esse sistema. Assim o proletariado é habilitado a estudar suficientemente o capitalismo, ele é compelido a se tornar completamente familiarizado com seu inimigo. Essa é a razão pela qual a análise científica do capitalismo fornecida em “O Capital”, que é a obra da vida de Karl Marx, encontrou relutância e pouca compreensão por parte dos cientistas burgueses, mas foi saudada com entusiástico apreço pelo proletariado, que encontrou nesse trabalho uma revelação das causas de sua pobreza. Por tais ensinamentos lhes é possível entender toda a história do modo de produção capitalista. Eles se tornam cientes dos motivos pelos quais, inevitavelmente, o fracasso deve ser o destino de inúmeros pequenos burgueses e por que fomes, guerras e sofrimentos causados pelas crises decorrem necessariamente dessa produção. Mas eles também enxergam de que maneira o capitalismo se arruinará por suas próprias leis. A classe proletária compreende por que, por meio de seu discernimento e conhecimento, será capaz de substituir o capitalismo por uma produção social conscientemente regulada, na qual nenhuma força misteriosa poderá mais trazer destruição à humanidade. Portanto, a parcela socialista da classe proletária se coloca diante das forças sociais tão inteligente e compreensivamente quanto o educado burguês diante das forças da natureza. Aqui reside a causa da irreligiosidade do moderno proletariado socialista com consciência de classe. Não resulta de nenhuma propaganda anticlerical intencional. Nem de reinvindicação de algum programa. Surge gradualmente como consequência do profundo discernimento social que o proletariado adquire por instrução no campo da economia política. O proletário não se separa de sua fé por nenhuma doutrina materialista, mas sim pelo ensinamento que o capacita a enxergar clara e racionalmente as condições da sociedade, e na medida em que ele compreende o fato de que forças sociais são efeitos naturais de causas conhecidas, a velha fé em milagres morre dentro dele. III Para entender a natureza da religião por completo – e somente um entendimento completo nos capacitará a captar seus efeitos na presente sociedade – devemos chegar a uma concepção clara da natureza de coisas subjetivas em geral. É a este respeito que os escritos filosóficos de Josef Dietzgen são tão valiosos, porque nos dão clareza sobre a natureza da mente, dos pensamentos humanos, teorias, doutrinas, sobre as ideias em geral. Apenas desse modo compreendemos por completo nosso papel na vida social e na luta atual. O que quer que esteja na mente reflete o mundo exterior a nós. Surgiu desse mundo. Nossa concepção de coisas verdadeiras e reais deriva da nossa experiência no mundo, nossa concepção de coisas boas e sagradas das nossas necessidades. Mas essas reflexões mentais não são meras imagens refletidas que reproduzem os objetos exatamente como são enquanto a mente exerce um papel puramente passivo. Não, a mente transforma tudo o que assimila. Além de impressões e sentimentos, sobre os quais o mundo material exerce influência, ela produz conceitos e hipóteses mentais. Dietzgen explicou que a diferença entre mundo e mente, original e cópia, é a de que o fluxo dos fenômenos – infinitamente diverso, concreto e em constante mudança em que a realidade consiste – é transformado pela mente em conceitos abstratos, fixos, imutáveis, rígidos. Nessas concepções os fatos gerais, permanentes, importantes e proeminentes são destacados do quadro multicolorido dos fenômenos e nomeados enquanto natureza das coisas. Da mesma maneira subjetivamos com os termos bom, moral, sagrado, aquelas – dentre as muitas coisas e instituições necessárias para nosso bem-estar – que são essenciais para a satisfação das nossas necessidades gerais, permanentes e vitais. Embora derivados da realidade, é inerente à natureza desses conceitos e hipóteses mentais que não consigam acompanhá-la em suas incessantes alterações. Uma vez que algo foi colhido da experiência enquanto cópia mental, fixa-se na mente e permanece lá entronado como uma verdade reconhecida, enquanto novas experiências estão se acumulando na mente, com a qual essa verdade não pode mais ser conciliada. A princípio essa verdade resiste, mas gradualmente tem que se submeter à mudança, até que finalmente, quando os novos fatos se acumularam de forma esmagadora, ela é derrubada ou completamente compreendida e alterada. Essa é a história de todas as teorias científicas. O lugar da antiga é tomado por uma nova teoria, a qual, então, fornece uma sumarização abstrata e sistemática a toda reserva de fatos materiais. Não estamos tão interessados aqui em teorias científicas como nas concepções gerais referentes à natureza do mundo e ao lugar do homem nele, que são incorporadas pelas filosofias e religiões. Essas não são teorias abstraídas de experimentos e observações especiais de sábios exploradores. Os fatos sobre os quais são construídas são primordialmente experiências e sentimentos de nações inteiras ou de classes populares. Elas formam suas ideias e concepções gerais pelas suas experiências relativas à sua própria posição na natureza e meio social, particularmente em relação às necessidades de suas vidas. Sempre que poderosas forças desconhecidas as pressionem – como mencionamos antes – sua concepção do mundo é dominada por forças sobrenaturais e outras concepções são adicionadas a esse pensamento fundamental. Até agora foi o caso em quase toda a história, salvo poucas exceções. Assim, encontramos nas doutrinas religiosas as concepções gerais primitivas relativas à natureza do mundo e das relações do homem com aquelas forças desconhecidas expressas em formas mistificadas. Todo o necessário para a manutenção dos interesses dessa classe de pessoas assume, então, a forma de uma lei divina. Quando toda esperança de melhora pela autoafirmação se esvai, como ocorreu entre os proletários romanos arruinados dos primeiros séculos do cristianismo, é que o sofrimento dócil sem resistência e a inerte espera pela salvação sobrenatural se tornam a mais alta virtude. Mas quando uma preparação enérgica para a guerra é requerida para a manutenção de um território conquistado e é concluída com sucesso, como foi entre os judeus do Antigo Testamento, daí Jeová ajuda seu povo escolhido e aqueles que obedecem às suas leis a lutar bravamente. Na grande luta de classes da Europa, chamada de Reforma, cada uma das classes envolvidas na luta considerava como vontade de Deus tudo o que estivesse de acordo com seus interesses de classe, pois cada uma só poderia conceber aquilo que era vital para a existência de sua classe enquanto absolutamente bom e necessário. Para os seguidores de Lutero, que amavam servir a um príncipe, a lei de Deus ou a verdade de Deus, exigia obediência à autoridade; para a burguesia livre das cidades exigia igualdade Calvinista de indivíduos e seleção pela graça; para os camponeses e proletários rebeldes exigia a igualdade comunista de toda a humanidade. De modo geral, as religiões em luta daquele período podem ser comparadas aos partidos políticos dos dias atuais. Os membros de uma mesma classe se reuniam, e em seus congressos (concílios) formulavam sob forma de confissões de fé (hoje em dia diríamos programas) suas concepções gerais do que eles entendiam por verdadeiro, bom e necessário, e o que era, portanto, a verdade e a vontade de Deus. Naqueles dias a religião era algo vivo, profunda e intimamente conectado com toda a vida e, por essa razão, ocorria frequentemente de as pessoas mudarem suas religiões. Quando uma mudança de religião é considerada meramente um tipo de violação de costumes, como em nossos dias atuais, é um indício de que a religião permanece intocada pelos grandes movimentos sociais modernos, pelas lutas que estimulam a humanidade, e torna-se uma mera casca morta. Com o desenvolvimento da sociedade surgiram novas classes e novos antagonismos de classe. Do interior das coletividades de fiéis existentes outrora resultaram diferentes classes e antagonismos cresceram. Do mesmo estrato dos pequenos burgueses, surgiram grandes capitalistas e proletários. A confissão de fé, que antigamente expressava uma convicção social viva sob vestimenta teológica, torna-se uma fórmula rígida. A coletividade de fiéis, antigamente uma comunidade de interesses, torna-se algo fossilizado. As concepções mentais persistem por tradição enquanto formas teológicas abstratas, desde que não sejam abaladas pela forte tempestade de uma nova luta de classes. Quando chega essa nova luta de classes, encontra os velhos antagonismos tradicionais em seu caminho, e então começa a batalha entre a fé tradicional e a nova realidade. Os reais interesses de classe atuais são idênticos para os proletários de diferentes confissões religiosas, enquanto um profundo antagonismo de classe existe entre proletários e capitalistas de mesma denominação religiosa. Mas a nova realidade exige a superação de velhas tradições. Em uma época em que uma comunidade religiosa representava uma comunidade viva de interesses, a associação de membros da mesma fé foi transmitida por tradição, e uma tradição sagrada. Pelo fato de que dessa associação é a imagem mental de uma realidade passada, ainda persiste enquanto fato subjetivo e tenta se manter contra a investida de novos fatos, que influenciam a mente do proletário por sua própria experiência e pela propaganda socialista. No fim, o velho conjunto de concepções e interesses, que se tornaram casca morta, deve ceder ao novo conjunto baseado em interesses de classe contemporâneos. Portanto, religião é apenas um obstáculo temporário para o avanço do socialismo. Em virtude da sacralidade atrelada às suas doutrinas e mandamentos consegue se manter por mais tempo e mais tenazmente do que outras concepções burguesas. Por vezes, tal tenacidade criou a impressão de que a fidelidade do proletariado religioso seria um obstáculo ao socialismo na prática e uma refutação ao socialismo teórico. Mas em longo prazo até mesmo essa ideologia sucumbe ao poder da realidade, como provou o proletariado católico na Alemanha. IV Os ensinamentos socialistas inocularam o proletariado com uma concepção de mundo inteiramente nova. A percepção de que a sociedade está em contínuo processo de transformação, e que miséria, pobreza, exploração e todo o sofrimento do presente são temporários e em breve darão lugar para um tipo de sociedade – a ser inaugurada por sua classe – na qual paz, abundância e fraternidade reinarão. Tal percepção revolucionará completamente a concepção de mundo do proletário. A teoria do socialismo fornece os fundamentos científicos para essa concepção de mundo. A economia política nos ensina a entender as leis internas que movem o processo capitalista, enquanto o materialismo histórico revela os efeitos da revolução econômica sobre as concepções e ações das pessoas. Enquanto sistema teórico materialista, tudo isso permanece irreconciliavelmente oposto à religião. O proletário socialista que reconheceu seus interesses de classe e dessa forma se inspirou com entusiasmo pelo grande objetivo da luta de sua classe, desejará naturalmente ter um claro entendimento dos fundamentos científicos de suas ações práticas. Para este fim, se informa com as teorias materialistas do socialismo. Mas não é meramente almejando a satisfação derivada de um entendimento completo que é necessário que os partidos socialistas promovam uma compreensão minuciosa desses ensinamentos entre seus membros. É necessário, primordialmente, porque tal compreensão é indispensável para um impulso vigoroso em nossa luta. Assim, o estado de coisas atual é justamente o oposto do que os teólogos acreditam e proclamam. Nossas teorias materialistas não servem para privar os proletários de suas religiões. Eles se aproximam de nossas teorias apenas depois que suas religiões já se foram, e eles vêm até nós para uma fundamentação mais profunda e uniforme de seus pontos de vista. A religião não desaparece por propagarmos as teorias do materialismo, mas porque se debilita por simples amostras coletadas no campo da economia por uma cuidadosa observação do mundo atual. Ao declarar que a religião é um assunto privado não queremos dizer que são irrelevantes para nós quais concepções gerais nossos membros possuem. Preferimos um completo entendimento científico a uma fé religiosa não científica. Mas estamos convencidos de que as novas condições irão por si mesmas alterar as concepções religiosas e que a propaganda, religiosa ou antirreligiosa, é incapaz de conquistar ou evitar isso. Aqui está o ponto crucial da diferença entre nossa concepção e todas as anteriores, entre o atual movimento proletário e os movimentos de classe anteriores. Nossa teoria materialista nos revelou os fundamentos reais das lutas históricas passadas. Demonstrou que sempre foi uma questão de lutas de classes e interesses de classes cujos objetivos eram a transformação das condições econômicas. As pessoas não estavam claramente cientes das razões materiais de suas lutas. Suas concepções e objetivos eram encobertos por um véu místico de verdades eternas e fins sagrados e infinitos. Portanto, suas lutas eram conduzidas enquanto disputas entre ideias, pela verdade divina em cumprimento da vontade de Deus. As lutas assumiram a forma de guerras religiosas. Depois, quando a religião já não ocupava o primeiro lugar, quando a burguesia, fantasiando que poderia alcançar o mundo inteiro pela razão, lutou contra os representantes da igreja e da nobreza, essa burguesia imaginou estar empreendendo uma batalha pela racionalidade definitiva, pela justiça eterna baseada na razão. Naquele período a burguesia defendia o materialismo. Mas entendeu muito pouco da real natureza da luta e a conduziu nessa mistificação jurídica apresentando-a, aqui e acolá, como uma batalha contra a religião. Não viu que essa luta era somente uma luta de classe da burguesia contra as classes feudais cujo objetivo era instaurar o modo de produção capitalista. A esse respeito nossa luta de classe é diferente de todas as anteriores, em virtude de nossa ciência materialista nós a reconhecemos exatamente como é, a saber, uma luta pela transformação econômica da sociedade. Embora percebamos a elevada importância dessa luta e expressemos frequentemente em nossos escritos que trará liberdade e fraternidade para a humanidade, tornará reais os ideais cristãos de amor humano e emancipará o pensamento humano da opressão da superstição, não obstante nós não apresentemos esta luta como uma luta ética por um ideal moral, tampouco como luta jurídica por liberdade e justiça absolutas, e nem como luta subjetiva contra a superstição. Sabemos que, na realidade, se trava uma luta pela revolução do modo de produção, pelas demandas da produção, e todas as outras coisas são resultados que emanam dessa base. Essa compreensão clara da real natureza de nossa luta se expressa na declaração de que religião é um assunto privado. Não existe contradição entre nossa teoria materialista e essa reivindicação prática. Elas não representam dois pontos de vista antagônicos que devem ser conciliados no sentido de que “questões práticas” devem ser conciliadas com a “solidez dos princípios teóricos”. Não, assim como nossas denominadas questões práticas sempre resultam de uma clara compreensão teórica, também o são aqui, como as posições expostas acima demonstram. Portanto, a declaração de que a religião é um assunto privado expressa a clareza da natureza científica e do objetivo de nossa luta, uma consequência necessária de nossa teoria materialista da história e apenas nosso materialismo é apto a dar uma justificação científica dessa reivindicação. Notas da tradução: (1) Quando este texto foi escrito (1907) a social-democracia era a única corrente política marxista. Após 1914, quando ela se tornou antimarxista na prática e paulatinamente foi abandonando o materialismo-histórico-dialético como referência, este combate ficou restrito às alas conservadoras das religiões. Exatamente por sua evolução antimarxista, em alguns países alas progressistas das religiões ajudaram a fundar partidos sociais-democratas. Para os religiosos progressistas, a social-democracia resolvia uma contradição ao permitir uma atuação política que fosse, ao mesmo tempo, de esquerda e anticomunista. (2) Do original “Kaffir”. Até a década de 1950 era usado de forma neutra na África do Sul para se referir aos africanos negros, mais especificamente ao povo Nguni. Com o início do Apartheid começou a ser utilizado de forma ofensiva pelos brancos racistas. Atualmente é considerada a expressão racista mais ofensiva pela sociedade sul-africana. Tradução de Ernest Untermann.

  • O Dia Internacional da Mulher Comunista

    por Clara Zetkin, em fevereiro de 1922 Tempestades de entusiasmo saudaram a moção de nossas camaradas búlgaras e a resolução da Segunda Conferência Internacional de Mulheres Comunistas em Moscou, para celebrar o Dia da Mulher em todos os lugares em 8 de março, dia que anteriormente era observado apenas por camaradas russas. Os corações batiam ferozmente, os olhares voaram longe e a vontade de agir destemidamente se elevou suprema. Surgiu com entusiasmo a lembrança de que foi a manifestação monstruosa das mulheres proletárias de Petrogrado pela paz e pela liberdade que, em 8 de março de 1917, iniciou a Revolução Russa. O entendimento e a vontade das 82 representantes das mulheres comunistas de 28 nacionalidades convergiram em uma única grande determinação. Nosso Dia Internacional da Mulher deste ano deve se tornar um recrutamento gigante das grandes massas ao comunismo e deve ser um apelo irresistível à luta contra a ordem burguesa e pela tomada do poder pelo proletariado. Deve mostrar que nós, comunistas, não apenas queremos, mas também podemos, podemos agir. Agora é a hora de fazer nosso juramento silencioso, mas obrigatório, a fim de transformar a vontade em ação. A hora presente nos obriga a isso. O que os capitalistas começam em um país, nacionalmente, eles continuam internacionalmente – o esforço para estabelecer novamente e fortalecer para sempre a economia capitalista que está dilacerada e decadente por causa da guerra mundial e suas consequências. Não devido à força da própria história deste sistema econômico. Não! Somente à custa da exploração sangrenta e da mais dura escravização do proletariado, do povo trabalhador. A burguesia dos velhos países demonstrou durante sua guerra imperialista e nos anos que se seguiram, que não tem capacidade nem vontade de administrar para o bem comum as fabulosas forças produtivas que se desenvolveram sob seu domínio. Só pode paralisá-los e negligenciá-los através da miséria das crises e dos crimes de guerra, e levá-los à destruição e à ruína. O capitalismo não pode, como uma fênix, ressurgir das chamas e cinzas da guerra mundial rejuvenescido para uma nova vida. É fraco até mesmo para controlar o caos que criou; ele é ainda mais impotente para fazer brotar das ruínas uma existência nova, superior, material e cultural para todos. Ele pode apenas confundir isso com transformar uma minoria de milionários em bilionários. Satisfeitos ociosos, entupidos de pão e cultura e insignificantes com mérito científico, artístico e social em degenerados esbanjadores. Os desenvolvimentos rumo ao abismo não podem ser detidos pelas reuniões dos diplomatas, dos políticos, capitães da indústria e reis das finanças, com seus zumbidos e sussurros, com os falsos tratados secretos e seus punhos cerrados contra a classe trabalhadora. Eles permanecerão reais, apesar das profecias daqueles cansados e temerosos da revolução, que não veem nada no horizonte histórico além de um renascimento do capitalismo e de sua ordem. Assim como ninguém pode saltar sobre sua própria sombra, o capitalismo é incapaz de balançar-se além dos limites de sua existência. Sua admirada e elogiada “adaptabilidade” a formas superiores de organização, se quebra em sua natureza inflexível como uma economia de lucro individual e anarquista. A hora histórica do capitalismo já passou. Ele deve ceder lugar ao socialismo e ao comunismo, cujos pré-requisitos necessários foram gerados em seu próprio seio. Essa certeza não é uma crença feliz, mas sim um conhecimento científico inabalável e bem fundamentado dos fatos sociais, associações e leis da evolução. Em meio à terrível angústia e às amargas lutas desta época, essa garantia dará ao Dia Internacional da Mulher Comunista uma força infalível e um entusiasmo flamejante que atrairá e recrutará as massas. Forjará a vontade inflexível de milhões de lutar para superar o capitalismo e pavimentar o caminho para o comunismo. Pois esta vontade, e somente esta vontade, pode chutar o capitalismo para o túmulo, cujo processo de decomposição enche o ar de bactérias venenosas e pútridas e o hálito nauseante da pestilência. Caso falte essa ativa e abnegada vontade, então o capitalismo pode vegetar mais amplamente – embora tenha sido condenado pela história. O preço disso será pago pelos escravos assalariados explorados e oprimidos, pelas classes trabalhadoras pagadoras de impostos e dominadas fora das fileiras da aristocracia, dos capitães da indústria, dos dirigentes da bolsa de valores e seus irmãos ilegítimos, mas ainda assim naturais, os especuladores e usurários. E esse preço ficará registrado na história com sangue e lágrimas, como uma derrota esmagadora, a destruição e morte de exércitos proletários inteiros. As mulheres comunistas estavam conscientes de tudo isso quando adotaram sua resolução em Moscou para o Dia Internacional da Mulher. Elas estão cientes com maior clareza e maior determinação hoje, enquanto se preparam para esta manifestação. O Dia Internacional da Mulher Comunista também deve responder à pergunta fatídica que se coloca aos homens e mulheres trabalhadores de todos os países, carregados de responsabilidades e sacrifícios, mas ainda assim esperançosos e abençoados – aceitar paciente e humildemente o capitalismo imundo e sangrento, ou lutar resoluta e inexoravelmente para destruí-lo? A resposta a esta pergunta deve ser clara e inequívoca, sem voltas e reviravoltas com “mas” e “ses”, e milhões de mulheres e homens devem respondê-la. A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra da própria classe trabalhadora. No entanto, esta maior e mais frutífera obra da história nunca pode ser realizada pela classe trabalhadora enquanto ela é dividida em duas, pela distinção de gênero. Assim como os homens e mulheres do proletariado estão unidos em um estado de angústia existencial que esmaga o corpo e a alma, também devem estar unidos pelo ódio ardente ao capitalismo, com uma vontade mais confiante, mais ousada de lutar pela revolução. O Dia Internacional da Mulher Comunista não deve permanecer apenas uma manifestação de mulheres em qualquer país ou cidade, deve ser a expressão da vontade e do trabalho de todo o Partido Comunista, em todos os lugares. Isso deve apoiar o nosso Dia da Mulher com toda a sua força material e moral. O poder, o caráter, o teor, o objetivo de nosso Dia da Mulher devem tornar sua necessidade tão aparente e auto evidente quanto a existência de todos os partidos da Terceira Internacional. Ousaremos esquecer que somos comunistas? O comunismo une! Nosso lugar é na luta contra o monstro capitalista, no trabalho e na luta pela construção do edifício ensolarado do comunismo, no qual todos encontrarão um lar para a maior humanidade, tanto homens quanto mulheres, assim como na luta para a humanidade completa, devemos lutar pelas coisas que dizem respeito aos homens, bem como às que dizem respeito às mulheres. Diante de nossos pensamentos e vontades está uma grande reunião de milhões de todos os explorados, os escravizados, os sofredores e os oprimidos e uma grande e sublime causa comum que chama à luta! Aqui o proletariado anseia por uma vida mais plena, ali a burguesia anseia por ouro e poder! Aqui o socialismo, o comunismo, que transforma as pessoas que criam e desfrutam da cultura em seres humanos plenos e felizes; lá o capitalismo usa as pessoas como matéria-prima para os lucros, as mancha, reduz seu padrão de vida, as aleija e as oprime. Com esta convicção, o Dia Internacional da Mulher quer conquistar as grandes massas para a luta pela causa do comunismo. Homens e mulheres sem distinção! A memória do feito glorioso das mulheres trabalhadoras de Petrogrado em 8 de março deve flamular sobre o nosso Dia da Mulher como uma bandeira brilhante que indica o caminho e incendeia nossa coragem. Além disso, como força de recrutamento para o Partido Comunista de cada país, para o comunismo, para a Terceira Internacional, a manifestação continuará durante a semana de 5 a 12 de março. Pois é levar a centelha de pensamento que estimula o ato de emancipação até as profundezas e até o recanto mais remoto habitado por pessoas cuja humanidade é moída pelo capitalismo em seu moinho de lucro. Com esse objetivo em mente, nosso comício falará com voz de ferro sobre o que move o coração de inúmeras mulheres, sobre o destino de inúmeras mulheres. Falará também de labutas incansáveis e da amarga pobreza, de preocupações que consomem e da miséria sombria, de injustiças e de anseios ardentes implacáveis, de poder brutal e obstinado dos homens e da vontade revolucionária inflexível, ousada e desafiadora dos explorados e dos pequenos. O capitalismo não está atrás da mulher trabalhadora desde o amanhecer cinzento até tarde da noite, para espremer de sua carne e sangue – e muitas vezes com redobrada crueldade e inescrupulosidade – as riquezas com as quais deseja pagar por seus estragos na Guerra Mundial e por sua futura existência destrutiva? O aumento do custo de vida, intensificado pela especulação e pelos altos impostos arrancam-lhe o pedaço de pão seco da boca. Seus ganhos ou os do seu marido estão diminuindo e nenhuma perícia, nenhuma habilidade a protege do desemprego. A jornada de trabalho é cada vez mais longa, o fardo, a tortura e o perigo do trabalho aumentam. Os patrões, insolentes e desafiadores sob a proteção do Estado, estão destruindo os escassos primórdios da proteção legal para a mulher proletária assalariada, para as crianças, os filhos e filhas pequenos dos trabalhadores. O capitalista explorador quer se manter no mercado e exige maiores lucros. Insensivelmente, ele espezinha toda consideração de que a operária, a dona de casa do operário fabril, escriturária, funcionária pública, artesã, pequena agricultora, é esposa, mãe e ser humano. E, sob esta sagrada fome de ouro do capitalista individual, existe hoje a consciência de toda a classe capitalista de que a existência de seu poder explorador e governante está em jogo. Portanto, dinheiro em abundância para proteger e apoiar esse poder com baionetas e metralhadoras. Por outro lado, no que se refere à assistência social à mãe e ao filho, às instituições e medidas sociais que possam aliviar a sorte da dona de casa e da mãe, desgastada por duplas e triplas jornadas, pobreza absoluta. Por um lado, em nome da democracia, há privilégio e fortalecimento do poder para os ricos, mesmo que eles, como zangões, estorvem a sociedade. Por outro lado, há cerceamento de direitos políticos e sociais para as mulheres trabalhadoras, que com mãos e cérebros promovem o bem-estar e a cultura da comunidade. Presa também pelas correntes da escravidão sexual, a sorte da mulher trabalhadora, como vítima da escravidão de classe, é duplamente difícil. E se, no entanto, elas se atrevem a se rebelar contra essa escravidão, se seu irmão de classe se levanta contra eles, então a sociedade burguesa, com a morte respirando em seu pescoço, busca ajuda do Terror Branco, busca matar sua justiça de classe e o Terror Vermelho de seu exército de classe. Tais são os efeitos do capitalismo moribundo, lutando desesperadamente contra a morte, que ditam as palavras de ordem do nosso Dia da Mulher. Desde a reivindicação de medidas imediatas e drásticas para baratear e garantir as necessidades básicas da vida, até o momento do controle da economia por conselhos de trabalhadores livremente eleitos sem distinção de sexo. Começando com as reivindicações de plenos direitos políticos e sociais para as mulheres e proteção social eficiente para elas e terminando com um apelo à anistia irrestrita para todos os combatentes revolucionários, homens e mulheres. Dependendo das circunstâncias históricas dadas em cada país, uma ou outra necessidade e demanda proletária é o ponto de partida ou particularmente enfatizado. Em todos os países, no entanto, as demandas individuais devem ser combinadas em uma vontade poderosa e confiante de lutar pela conquista do poder de Estado pelo proletariado e pelo estabelecimento de sua ditadura no sistema soviético. Nas terras dos vencidos e dos vencedores, assim como nos chamados países neutros, o capitalismo não mais castiga com os chicotes de seu apogeu, mas com os escorpiões de sua decadência. Os sofrimentos da classe produtora de uma nação tornam-se a dor das outras. Isso desenvolve e fortalece a determinação revolucionária internacional de lutar, e o grito de guerra revolucionário internacional, “Abaixo o Minotauro, o devorador de homens!” Nosso Dia da Mulher Comunista deve promover isso. A solidariedade internacional dos oprimidos e famintos de todos os países exige imperativamente uma expressão tangível atual – uma ajuda fraterna e abnegada para os famintos e ameaçados de morte na Rússia Soviética, luta determinada pela liberdade, e a própria existência da Rússia Soviética. Os imperialistas da França e da Inglaterra exigem como despojos de guerra uma parte enorme da riqueza que os capitalistas alemães extorquem do proletariado. Como compensação, eles querem permitir que Stinnes e Rathenau, barões da indústria alemã, participem do bem planejado saque e desmembramento da Rússia soviética. É para se tornar uma colônia para a exploração inesgotável do capitalismo mundial sob a administração alemã. O ódio mortal pelo único estado proletário do mundo permeia aqueles gananciosos por ouro e poder e o clã internacional de exploradores que têm fome de vidas. Pode este estado viver, pode desenvolver suas jovens forças, se a estrutura rachada e quebrada do capitalismo mundial só pode ser cimentada com o sangue e o suor de milhões de pessoas miseráveis, se só pode ser sustentada pelos ossos de gerações destruídas? Sua mera existência não é um lembrete contínuo para os escravizados para se livrarem do jugo de seus ombros feridos e de suas almas despedaçadas? Os trabalhadores e camponeses da Rússia Soviética realizaram feitos imortais em luta heroica e no martírio silencioso. Sozinho, enfraquecido pela guerra civil, atacado por inimigos internos, o país não conseguiu em quatro curtos anos apagar a herança criminosa do czarismo e do capitalismo e compensar a falta de desenvolvimento econômico e cultural, que se manteve estagnado por séculos. E precisava daquilo que acelerasse e facilitasse a construção de uma vida nova e mais plena, a colaboração com outros estados proletários nos quais a revolução social desencadeou enormes forças criativas. A Rússia soviética foi forçada a retomar as negociações com o capitalismo que deseja erradicar. Esta ação não foi um fruto amargo dos “graves erros” de seu partido revolucionário, mas muito mais culpa dos proletários de outros países, sobretudo da Alemanha – que não ousaram pensar e lutar por sua liberdade. O capitalismo que foi admitido na Rússia soviética deve permanecer o servo bem pago do proletariado e de sua república, e nunca deve se tornar o mestre comandante, o governante. O poder ainda está com os soviéticos e deve permanecer com eles. Proletários de todo o mundo, paguem sua tremenda dívida para com seus irmãos e irmãs russos! E vocês, mulheres trabalhadoras do mundo inteiro, façam o mesmo! Não é a Rússia Soviética o único país que clama e reconhece o trabalho da mulher em todos os campos, que protege e valoriza socialmente a maternidade, na medida em que a mulher é cidadã e tem direitos iguais? Mãos fora da Rússia Soviética! Abram caminho para a Rússia Soviética! Vamos ao enérgico desenvolvimento da Rússia Soviética! Portanto, a partir de nosso Dia Internacional da Mulher, deve rugir em todo o mundo o chamado para lutar contra a burguesia saqueadora de todos os países capitalistas. As correspondentes internacionais dos Partidos Comunistas de muitos países europeus, em conferência conjunta com as representantes do secretariado das mulheres da Terceira Internacional, discutiram a implementação do Dia da Mulher. Em suas decisões, elas estavam de acordo com as ordens da Terceira Internacional. O Partido Comunista de cada país pode e não deve deixar de dedicar toda a sua força ao sucesso de nossa manifestação. O Dia Internacional da Mulher Comunista começa em 5 de março, aniversário de Rosa Luxemburgo. A obra da vida e o bom exemplo da destemida e genial revolucionária, cujo corpo foi mutilado por mãos assassinas, mas cujo espírito vive imortal entre nós, será uma coluna de fogo para iluminar e nos mostrar o caminho. Em 8 de março de 1917, quando as mulheres tocaram o sino da Revolução Russa, os deputados das potências capitalistas se reuniram em Gênova para trazer o mundo de volta ao equilíbrio capitalista. O proletariado internacional deve responder à manifestação da contrarrevolução internacional com uma declaração de vontade e uma luta resoluta. E as mulheres lutarão com honra e glória nas primeiras fileiras da frente única revolucionária. Seu Dia Internacional deve construir uma forte força proletária se levantando contra a negociação contrarrevolucionária do poder capitalista e seus lacaios políticos. As mulheres ajudaram a pavimentar o caminho do cristianismo rumo à igualdade. As mulheres trouxeram o rei e a Assembleia Nacional de Versalhes de volta a Paris em 5 e 6 de outubro de 1789, no cortejo fúnebre da monarquia absolutista e do estado feudal e procissão triunfal da Revolução. As mulheres, em 18 de março de 1871, impediram o roubo da artilharia do povo parisiense pelos Guardas Brancos de Adolphe Thiers e deram o sinal para a Comuna. Nossos tempos difíceis, em que está em jogo a liberdade e até mesmo a mais simples existência dos proletários de todos os países, nossa grande época, em que a reação mundial e a revolução mundial estão se preparando para o conflito armado, não devem encontrar nenhuma mulher insignificante, nem corações iludidos, medrosos e fracos! Preparemo-nos para a luta! Entremos na luta com seriedade e sem medo! Tradução de Elisa G. Stefanelli

  • A linha revolucionária e o revisionismo

    por Mahir Çayan A linha revolucionária e o revisionismo (1972) Mahir Çayan Descrevemos, em poucas palavras, as características do terceiro período de crise geral e as diferenças em relação aos outros períodos gerais de crise do imperialismo. Nesse período, o revisionismo e o oportunismo na esquerda se mostraram de duas formas. Devido às qualidades características deste período, os primeiros afirmaram que as teses universais do leninismo haviam perdido sua validade. Por isso, eles elaboraram a teoria de uma revolução pacífica e pacifista. Entretanto, a substância do imperialismo não mudou. O que mudou foram as formas de relações imperialistas internas e a exploração. Portanto, as teses universais do leninismo, o marxismo da área imperialista, permanecem válidas até o colapso do imperialismo como sistema. O segundo tipo, a linha social-reformista, que não leva em conta as formas mutáveis de relações e exploração do imperialismo, não usa a teoria como um guia para a ação, mas como um dogma invariável. Em sua opinião, a forma de propaganda armada não pode ser o principal método de luta porque, segundo eles, essa forma de propaganda não aparece no leninismo. Supostamente, a propaganda armada não é uma forma de organização. Aderir à propaganda armada significaria ver tudo através do cano de uma arma... etc... Queremos nos aprofundar um pouco mais nesse tema. Como é sabido, Marx e Engels, na segunda parte do século XIX, disseram: para que a luta do proletariado contra a burguesia alcance uma fase mais avançada e para tornar possível a primeira revolução proletária no mundo, provavelmente será necessária uma guerra mundial entre os imperialistas. Lênin e os bolcheviques realizaram a primeira revolução proletária no mundo na era imperialista, fazendo sua própria análise de gênio. Lênin já havia dito, por volta de 1900 (muito antes, antes de escrever seu livro "Imperialismo"), que a lei do desenvolvimento desigual e instável do capitalismo levará obrigatoriamente a uma guerra entre os imperialistas, o que abrirá o caminho para a revolução do elo mais fraco da cadeia do capitalismo, a Rússia. De acordo com o modelo leninista da revolução, os conflitos entre os imperialistas, sem dúvida, passarão para a plataforma militar. Como sabemos, o movimento do proletariado mundial deu um salto gigantesco durante a primeira guerra mundial intra-imperialista, durante a fase de mudança de cima para baixo, e 1/6 do mundo se tornou socialista. Durante a fase de virada de cima para baixo, causada pela segunda guerra mundial intra-imperialista, 1/3 do mundo já se tornou socialista e o socialismo ganhou prestígio em todo o mundo. Após a Segunda Guerra Mundial, o capitalismo entrou em um novo período de crise. Não é possível que os conflitos interimperialistas provoquem uma guerra nesse período. (Pelas razões que já mencionamos). A Revolução Cubana, com sua forma de luta, com o caminho que seguiram, é, portanto, o resultado das particularidades desse período histórico, ou seja, o resultado da aplicação prática do marxismo-leninismo nesse período histórico. Com exceção da Revolução proletária em Cuba, todas as outras revoluções foram realizadas pelas reviravoltas de cima para baixo das duas guerras mundiais. Da aplicação das teses marxistas-leninistas universais na prática dessa situação histórica concreta decorre que a propaganda armada é a forma básica de luta e que a guerra da vanguarda do povo constitui a linha bolchevique dos revolucionários proletários de todos os países que estão sob a hegemonia do imperialismo. Tanto os pacifistas de nosso país quanto os de outros países chamam a luta das organizações revolucionárias que tomam a propaganda armada como a forma básica de luta, que travam a guerra de vanguarda, de "duelo de um punhado de pessoas com a classe dominante", de "linha do anarquismo e do narodnismo", e dizem que "essa forma de luta não existe com Lênin". Essa concepção significa ver tudo através do cano de uma arma... etc..." Essas afirmações, que nada mais são do que um véu ideológico para cobrir a capitulação, têm um lado que deve ser levado a sério. Diremos apenas o seguinte: Nesse período, ocorreu uma revolução. E aqueles que alcançaram essa revolução, além disso, adotando a propaganda armada como forma básica de luta, começaram com a guerra de vanguarda. Os movimentos revolucionários que tomam o método de trabalho leninista como base para essa situação histórica escrevem a epopéia da libertação dessas pessoas nas regiões rurais deste mundo. Entretanto, os pacifistas, um grupo de poucos, conduzem um duelo de palavras como braço esquerdo prolongado do imperialismo e da oligarquia no mundo contra aqueles que escrevem a epopéia da libertação com sangue e fogo. Lênin dá a melhor resposta aos pacifistas que afirmam que essa forma de luta não existe com Lênin: Então, vamos dar a ele a palavra: "O marxismo exige um exame histórico rigoroso da questão das formas de luta. Manter essa questão separada da situação histórica concreta mostraria que os princípios do materialismo dialético não são totalmente compreendidos. Nos diferentes estágios da evolução econômica, vinculados às circunstâncias de vida político-nacional-cultural em transformação, surgem diferentes formas de luta, que se transformam principalmente em formas de luta; em relação a elas, também mudam as formas suplementares de luta, em segundo grau". Aqueles que não levam em conta as mudanças nas condições políticas, culturais e nacionais da evolução econômica (imperialismo), que estão desconectados da situação histórica concreta vivida (o terceiro período de crise do imperialismo) e da prática, e aqueles que estão fixados em um método de trabalho mecânico nas obras de Marx, Lênin, Stálin e Mao, podem ser bons marxólogos, mas nunca poderão ser revolucionários proletários. A principal diferença entre todos os tipos de oportunismo e a linha revolucionária está na escolha da forma básica de luta. Como sabemos, a luta revolucionária proletária, travada contra as classes dominantes, é versátil. Essa versatilidade está reunida sob dois títulos na literatura: a) Métodos pacíficos de luta (não significa reconciliação) b) Métodos armados de ação. Como deve ser conduzida a luta contra o imperialismo e a oligarquia nos países sob ocupação do imperialismo? Com que forma de luta como base deve ser destruído o equilíbrio artificial entre a oligarquia e o descontentamento, a reação do povo? Qual método de luta, como base, deve ser escolhido para atrair o povo para as fileiras revolucionárias? Que forma de luta deve ser a base para uma campanha que revele os fatos políticos? É exatamente isso que divide a linha revolucionária da linha oportunista, a teoria revolucionária da baboseira ideológica "ortodoxa". Os revisionistas internacionais e os pacifistas que dividem os estágios da evolução e da revolução da luta revolucionária no período atual com uma linha nítida, respondem às perguntas acima mencionadas (quaisquer que sejam as diferenças entre elas, desde aquelas que tomam a cidade como base até aquelas que tomam o país como base) da seguinte forma: "Vá até as massas, satisfaça as necessidades mais básicas das massas, politize-as, organize-as com base nos direitos econômicos e nas necessidades dos trabalhadores, direcionando-as para o objetivo político". Em todos os países que são deixados para trás, onde os direitos e as liberdades democráticas não são aplicados, são deixados de lado, ou melhor, onde a oligarquia "não permite" a aplicação e uma política completa de submissão é praticada contra as massas trabalhadoras com a ajuda do exército, da polícia e de outras forças, essas organizações que querem transformar a luta econômica e democrática em uma luta política com o clássico "trabalho de massa" ficarão cada vez mais fracas diante das forças militares superiores e da repressão do inimigo e deslizarão ainda mais para a direita. Dessa forma, "deixarão sobreviver o desequilíbrio artificial, construído entre a ditadura da oligarquia e a pressão do povo, em vez de destruí-lo". (Che) Sim, ela sobreviverá quando seguirmos esse caminho. É claro que parecerá haver progresso. Mas aqueles que defendem esse caminho, embora possam ter tido qualidades militantes no início, perderão essa qualidade, ficarão estragados e se tornarão burocratas, cada vez mais. O que se perderá será a substância revolucionária e, portanto, também alguns trabalhadores que foram levados ao pacifismo. Esse é sempre o resultado. Quando se interpreta essa visão superficialmente, chega-se a essa conclusão. Eles acham que a fase de evolução será longa e a fase de revolução será curta, como aconteceu durante a revolução na União Soviética, onde o proletariado urbano desempenhou o papel principal. As organizações que adotam essa forma básica de luta ficarão cada vez mais sob as asas dos nacionalistas revolucionários, enquanto eles pensam que alcançarão os direitos democráticos e as liberdades no país sob sua liderança e, com isso, poderão organizar as massas no campo da luta econômica e democrática e criar consciência. Por exemplo, o grupo X se reúne nos arredores de um jornal que revela os fatos políticos e tenta se firmar em fábricas e outros lugares, entrando em organizações de massa econômico-democráticas. Ao mesmo tempo em que, partindo desse ponto, tentam puxar as massas para o lado da revolução, e ao mesmo tempo em que tomam essa forma de luta como base, planejam, por outro lado, um ou dois roubos para fornecer dinheiro para a organização, e podem ter realizado um ou dois atos de sabotagem e algumas tentativas de ataque. (Mas essas ações armadas realizadas não são o mesmo que propaganda armada). E esse grupo, que adotou esse método de trabalho, depositou todas as suas esperanças em uma junta nacionalista-revolucionária, porque essa junta praticamente realizaria a constituição de 27 de maio de 1961 (uma constituição liberal-democrática, tr.), os artigos 141-142 (comparáveis ao 129a na Alemanha) seriam abolidos e uma ordem seria criada de acordo com o método de luta escolhido. O ponto de vista revolucionário é o seguinte: A propaganda armada é o principal método de luta para destruir o equilíbrio artificial entre a oligarquia e a reação inconsciente e o descontentamento do povo e para a mobilização das massas ao lado da revolução. Nos países em que a luta econômica e democrática das massas trabalhadoras é abatida pela ditadura da oligarquia - embora em sua instituição parlamentar -, onde a autoridade central parece um "gigante" com seu exército, polícia etc., onde existe a ocupação oculta, nesses países a propaganda armada é o principal método de luta que estabelece um contato com as massas e as ganha para as fileiras da revolução por meio de uma ampla campanha que divulga os fatos políticos. A propaganda armada não é uma luta militar, é uma luta política. Não é uma forma de luta individual, é uma forma de luta de massas. Portanto, a propaganda armada, de qualquer forma, não é terrorismo (apesar das alegações dos pacifistas), ela difere do terrorismo individual em seu objetivo e meios. A propaganda armada considera uma determinada estratégia revolucionária que é reconhecível pelas massas nas ações materiais e concretas e, a partir disso, desenvolve sua teoria. Na área dos eventos materiais, ela revela os fatos políticos, traz consciência para as massas e mostra a elas o objetivo político. A propaganda armada agita o descontentamento do povo contra a ordem, libertando-o, com o tempo, dos efeitos da lavagem cerebral imperialista. Primeiro, ela sacode as massas e, passo a passo, torna-as conscientes, mostra a elas que a autoridade central não é tão forte quanto parece, que a força é, em primeira instância, baseada em gritos, intimidação e demagogia. A propaganda armada, a princípio, leva particularmente a visão das massas, que são levadas pela mídia imperialista, que se afundam nos problemas diários de subsistência, que colocam suas esperanças em um "partido" da ordem ou em outro, ao movimento revolucionário e cria um tumulto nas massas pacificadas e entorpecidas. No início, o constrangimento e a indecisão das massas, causados pela densa propaganda de direita (isso também inclui a mídia oportunista), mudam cada vez mais para a simpatia pelo movimento revolucionário. No entanto, em relação à oligarquia, que tira sua "máscara de justiça" em relação à ação armada e aumenta seu terror contra o povo em uma medida até então desconhecida, o constrangimento e a indecisão se transformam em antipatia, e as massas reconhecem a face feia da oligarquia. A organização que usa a propaganda armada como base torna-se a única fonte de esperança. Enquanto, de um lado, o desemprego e a inflação aumentam, e o descontentamento do povo beira o insuportável, a oligarquia, de outro lado, perde todo o seu prestígio, em primeiro lugar, aos olhos dos intelectuais e, portanto, aos olhos do povo. Por causa da propaganda armada, eles aumentam imensamente a repressão e o terror, e todos os direitos democráticos do povo desaparecem no armário. O partido que travar a guerra de guerrilha com sucesso limpará cada vez mais a esquerda dos parasitas, em primeiro lugar, reunindo as partes despertas do povo que estavam sob a influência das facções oportunistas da esquerda. As partes da população que foram confundidas pelos pacifistas - trabalhadores, camponeses, estudantes - se reúnem em torno da propaganda armada. Portanto, a propaganda armada reunirá, em primeiro lugar, a esquerda e os elementos sinceros que, a princípio, estavam sob a influência de diferentes tendências, se unirão em torno de uma única estratégia. A propaganda armada inclui a guerrilha rural e urbana, bem como a guerra psicológica e a guerra de desgaste. Manter a forma básica de luta dessa maneira não significa que outras formas de luta sejam negligenciadas. A organização que toma a propaganda armada como base também terá em suas mãos as outras formas de luta, comparadas às possibilidades. Entretanto, as outras formas de luta são secundárias. A propaganda armada é a forma básica de luta. Isso não significa que permaneçamos inativos em relação aos movimentos de massa econômicos e democráticos. A organização tentará, em relação à sua força, organizar as massas na área de seus direitos e desejos econômicos e democráticos. A organização tentará liderar todos os tipos de reações contra a oligarquia. No entanto, no início, será impossível ir a todos os lugares, a organização não participará de movimentos de massa que excedam sua força e que não estejam protegidos por armas. Proporcionalmente, de acordo com suas possibilidades, a organização se empenhará na educação política, na propaganda e na organização para alcançar a consciência, fora da propaganda armada. A luta de massa política clássica e a propaganda armada se revezam, estipulam uma à outra, dependem uma da outra e se influenciam mutuamente. As outras formas de luta política, econômica e democrática, fora da propaganda armada, estão sujeitas à propaganda armada e se formam de acordo com ela. (As formas de luta sujeitas tomam forma de acordo com a forma básica de luta. Portanto, elas tomam forma de acordo com os métodos de propaganda armada). A estratégia revolucionária que tem a propaganda armada como base e as outras formas econômicas e democráticas de luta como sujeitas a ela é chamada de Estratégia Politizada de Luta Militar. (PASS) Para a organização dessa estratégia, a luta ideológica não é um meio polêmico, ela leva à educação política de seus quadros. Essas são, em resumo, as visões da linha revolucionária e da linha revisionista que existem nos países sob ocupação do imperialismo no terceiro período de crise. Resumo Nesses países, existem dois desvios sob o nome de "revolucionários proletários": 1) A linha revisionista, clássica e "ortodoxa": (As qualidades) Olhar para o lado militar e o lado político em oposição um ao outro subestimando o lado militar. A função política do proletariado urbano à luz do modelo soviético, no qual o proletariado urbano desempenhou um papel fundamental, é excessivamente valorizada. Após a conquista de prestígio pela propaganda armada, essas organizações perderam prestígio e, então, abriram uma "filial" para construir a guerrilha. É claro que essa guerrilha permaneceu ociosa. Os revisionistas tomam a forma pacífica de luta como sua base, dividem as fases de evolução e revolução com uma linha nítida e rejeitam a guerra de vanguarda - embora o país esteja em uma crise nacional -. Isso cria espontaneidade. 2) Como resultado de uma análise equivocada da Revolução Cubana e como reação à visão acima mencionada, surgiu a linha da esquerda militante; a visão focalizada: nessa visão, as relações entre a cidade e o campo, a propaganda armada e as outras formas de luta não são vistas como uma unidade dialética; ela só usa totalmente a propaganda armada no campo, considera sem importância o papel submisso das cidades e as outras formas de luta. Na base desse ponto de vista está o pensamento de que os camponeses pegarão em armas imediatamente por meio da luta da vanguarda, e a guerra se transformará em uma guerra popular em um tempo muito curto. Nesse aspecto, essa linha também representa uma "espontaneidade" de "esquerda". No entanto, os defensores dessa visão desistiram dela, reconhecendo o confronto com os fatos da vida, onde eles estavam longe da realidade. Hoje em dia, em todo o mundo, quase não existem mais organizações de propaganda armada com essa visão de foco. Mahir Çayan (1946 - 1972) foi um revolucionário comunista turco e líder do Partido da Frente Popular de Libertação da Turquia. Ele era um líder revolucionário marxista-leninista. Em 30 de março de 1972, ele foi morto em uma emboscada pelas forças militares turcas com nove dos outros membros do THKP-C e THKO na vila de Kızıldere. Tradução de Gercyane Oliveira

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