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Mulheres árabes mulçumanas e rupturas históricas no sistema patriarcal

por Gercyane Oliveira



Para muitos, pode parecer contraditório e até absurdo falarmos de mulheres árabes muçulmanas capazes de provocar rupturas no sistema patriarcal ou evidenciar as rachaduras do mesmo.


São mulheres que demonstram que não é o islã que violenta e despe mulheres de seus direitos básicos, mas, sim, uma sociedade historicamente construída na opressão feminina. Khawlah Bint e Lubna Al-Qurtubi são exemplos dessas mulheres e, a partir de agora, falaremos um pouco sobre elas.


Khawlah bint al-Azwar (Século VII - 639)


Khawlah é uma das maiores mulheres da história árabe e muçulmana. Era filha do chefe da tribo árabe Banu Assad. Sua tribo se converteu ao islamismo durante a vida do Profeta Muhammad. Seu irmão, Dhiraar bin al-azwar, era soldado e comandante do exército rashidun, um dos mais organizados e poderosos da época, e conhecido por excelentes estratégias e disciplina dos soldados.


Na batalha de Sanita - al - Ugab que aconteceu em 364, durante o cerco de Damasco, Dhiraar estava liderando o exército muçulmano, mas foi ferido e feito prisioneiro pelos bizantinos. Khalid Ibn Walid, responsável pelo exército de Medina e famoso militar por suas táticas e destreza, foi ao resgate de Dhiraar.

Enquanto isso, Khawlah pegou a armadura, as armas, a égua de um cavaleiro, se envolveu em um xale verde e foi lutar contra o batalhão bizantino.

Khawlah acompanhou o exército muçulmano e avançou sozinha contra a retaguarda bizantina. Em sua armadura, ela não foi reconhecida. Na verdade, o exército muçulmano pensou que ela era o próprio Khalid Ibn Walid por conta de suas excelentes habilidades em equitação e combate. Ao final da batalha, Khalid ordenou que o exército perseguisse os bizantinos em fuga e conseguiu libertar prisioneiros muçulmanos. Após esse episódio, Khawlah começou a liderar batalhas. Ela foi imprescindível para a conquista de territórios que hoje são conhecidos como Síria, Palestina e Jordânia.


Uma outra batalha travada por Khawlah foi a de Yarmuk. Essa batalha, entre muçulmanos e bizantinos, durou 6 dias (15 a 20 de agosto de 636). O nome de batalha se deve ao rio nas proximidades, o rio Yarmuk, região que atualmente é a fronteira entre a Síria e a Jordânia. O lado muçulmano saiu vitorioso da batalha, acabando com o domínio bizantino na Síria. No quarto dia da batalha de Yarmuk, talvez um dos mais difíceis para o exército muçulmano, Khawlah liderou um grupo de mulheres contra o império bizantino, conseguindo derrotar o comandante chefe.

Atualmente, muitas cidades e escolas da Arábia Saudita levam o nome de Khawlah bint al-Azwar. Há também uma unidade iraquiana só de mulheres com o nome de Khawlah. Nos Emirados Árabes Unidos, o primeiro colégio militar feminino recebeu o nome de Khawlah. Na história islâmica, seu nome é lembrado quando se pensa em grandes generais.


Lubna Al-Qurtubi (Segunda metade do século X)


https://nisa2muslimat.wordpress.com/


Lubna Al-Qurtubi nasceu na Espanha como escrava e foi outra grande mulher muçulmana e protagonista da história árabe. Provavelmente não era de uma família muçulmana, pois o Alcorão proíbe tomar outros muçulmanos como escravos. Porém, não há registros se ela teria se convertido mais tarde ao islamismo ou não.


Acredita-se que tenha sido autodidata. Depois de se mostrar brilhante em várias áreas do conhecimento, ela começou a trabalhar na corte real Omíada. Lubna também se tornou famosa pela qualidade de suas poesias.

Além disso, ela era matemática e secretária do Palácio, servindo de conselheira para o sultão Abd Al Rahman III e seu filho, que o sucedeu.


Também foi bibliotecária responsável pela biblioteca de Medina Al Zahra, adicionando mais de 500 mil livros à biblioteca. Essa biblioteca era uma das maiores e mais importantes da época em todo o mundo. Ela mesma havia traduzido muitos dos 500 mil livros, como é o caso de textos históricos gregos que, de outra forma, teriam sido perdidos no tempo.

Ensinava matemática para crianças na rua. Muitos relatos indicam que várias dessas crianças a procuravam para aprender mais, prova de que era uma professora habilidosa.

Ela foi uma das primeiras mulheres que passou a viajar desacompanhada. Teria viajado pelo Oriente Médio procurando livros para a livraria. Há registros de suas viagens para o Cairo, Damasco e Bagdá.


Apesar de mulheres intelectuais na corte ou em posições na realeza não fosse algo raro no Califado, não era exatamente comum. Mas, colocar uma mulher no poder era uma grande prova de confiança e uma evidência de que muitas mulheres tiveram papéis significativos durante os 1400 anos de história islâmica.


É preciso recuperar a história e a resistência feminina no Oriente Médio e Norte da África. Da direita à esquerda, no feminismo ocidental, o discurso para usar outros povos como métrica de civilização é banalizado. Como para encontrar a pobreza, violência, fundamentalismo etc. é necessário um exílio forçado. “O inferno são os outros!”, já diria Sartre, na peça “Entre quatro paredes”. aí o outro como o próprio autor discute é realizado no olhar onde um sujeito tem o poder de categorizar, qualificar, objetificar ao ponto de desumanizar o que está além de si. Este é o olhar orientalista acerca das mulheres árabes muçulmanas.

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