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O Dia Internacional da Mulher Comunista

por Clara Zetkin, em fevereiro de 1922





Tempestades de entusiasmo saudaram a moção de nossas camaradas búlgaras e a resolução da Segunda Conferência Internacional de Mulheres Comunistas em Moscou, para celebrar o Dia da Mulher em todos os lugares em 8 de março, dia que anteriormente era observado apenas por camaradas russas. Os corações batiam ferozmente, os olhares voaram longe e a vontade de agir destemidamente se elevou suprema. Surgiu com entusiasmo a lembrança de que foi a manifestação monstruosa das mulheres proletárias de Petrogrado pela paz e pela liberdade que, em 8 de março de 1917, iniciou a Revolução Russa. O entendimento e a vontade das 82 representantes das mulheres comunistas de 28 nacionalidades convergiram em uma única grande determinação. Nosso Dia Internacional da Mulher deste ano deve se tornar um recrutamento gigante das grandes massas ao comunismo e deve ser um apelo irresistível à luta contra a ordem burguesa e pela tomada do poder pelo proletariado. Deve mostrar que nós, comunistas, não apenas queremos, mas também podemos, podemos agir. Agora é a hora de fazer nosso juramento silencioso, mas obrigatório, a fim de transformar a vontade em ação.


A hora presente nos obriga a isso. O que os capitalistas começam em um país, nacionalmente, eles continuam internacionalmente – o esforço para estabelecer novamente e fortalecer para sempre a economia capitalista que está dilacerada e decadente por causa da guerra mundial e suas consequências. Não devido à força da própria história deste sistema econômico. Não! Somente à custa da exploração sangrenta e da mais dura escravização do proletariado, do povo trabalhador.


A burguesia dos velhos países demonstrou durante sua guerra imperialista e nos anos que se seguiram, que não tem capacidade nem vontade de administrar para o bem comum as fabulosas forças produtivas que se desenvolveram sob seu domínio. Só pode paralisá-los e negligenciá-los através da miséria das crises e dos crimes de guerra, e levá-los à destruição e à ruína. O capitalismo não pode, como uma fênix, ressurgir das chamas e cinzas da guerra mundial rejuvenescido para uma nova vida. É fraco até mesmo para controlar o caos que criou; ele é ainda mais impotente para fazer brotar das ruínas uma existência nova, superior, material e cultural para todos. Ele pode apenas confundir isso com transformar uma minoria de milionários em bilionários. Satisfeitos ociosos, entupidos de pão e cultura e insignificantes com mérito científico, artístico e social em degenerados esbanjadores.


Os desenvolvimentos rumo ao abismo não podem ser detidos pelas reuniões dos diplomatas, dos políticos, capitães da indústria e reis das finanças, com seus zumbidos e sussurros, com os falsos tratados secretos e seus punhos cerrados contra a classe trabalhadora. Eles permanecerão reais, apesar das profecias daqueles cansados e temerosos da revolução, que não veem nada no horizonte histórico além de um renascimento do capitalismo e de sua ordem. Assim como ninguém pode saltar sobre sua própria sombra, o capitalismo é incapaz de balançar-se além dos limites de sua existência. Sua admirada e elogiada “adaptabilidade” a formas superiores de organização, se quebra em sua natureza inflexível como uma economia de lucro individual e anarquista. A hora histórica do capitalismo já passou. Ele deve ceder lugar ao socialismo e ao comunismo, cujos pré-requisitos necessários foram gerados em seu próprio seio.


Essa certeza não é uma crença feliz, mas sim um conhecimento científico inabalável e bem fundamentado dos fatos sociais, associações e leis da evolução. Em meio à terrível angústia e às amargas lutas desta época, essa garantia dará ao Dia Internacional da Mulher Comunista uma força infalível e um entusiasmo flamejante que atrairá e recrutará as massas. Forjará a vontade inflexível de milhões de lutar para superar o capitalismo e pavimentar o caminho para o comunismo. Pois esta vontade, e somente esta vontade, pode chutar o capitalismo para o túmulo, cujo processo de decomposição enche o ar de bactérias venenosas e pútridas e o hálito nauseante da pestilência. Caso falte essa ativa e abnegada vontade, então o capitalismo pode vegetar mais amplamente – embora tenha sido condenado pela história. O preço disso será pago pelos escravos assalariados explorados e oprimidos, pelas classes trabalhadoras pagadoras de impostos e dominadas fora das fileiras da aristocracia, dos capitães da indústria, dos dirigentes da bolsa de valores e seus irmãos ilegítimos, mas ainda assim naturais, os especuladores e usurários. E esse preço ficará registrado na história com sangue e lágrimas, como uma derrota esmagadora, a destruição e morte de exércitos proletários inteiros.


As mulheres comunistas estavam conscientes de tudo isso quando adotaram sua resolução em Moscou para o Dia Internacional da Mulher. Elas estão cientes com maior clareza e maior determinação hoje, enquanto se preparam para esta manifestação. O Dia Internacional da Mulher Comunista também deve responder à pergunta fatídica que se coloca aos homens e mulheres trabalhadores de todos os países, carregados de responsabilidades e sacrifícios, mas ainda assim esperançosos e abençoados – aceitar paciente e humildemente o capitalismo imundo e sangrento, ou lutar resoluta e inexoravelmente para destruí-lo? A resposta a esta pergunta deve ser clara e inequívoca, sem voltas e reviravoltas com “mas” e “ses”, e milhões de mulheres e homens devem respondê-la.


A emancipação dos trabalhadores só pode ser obra da própria classe trabalhadora. No entanto, esta maior e mais frutífera obra da história nunca pode ser realizada pela classe trabalhadora enquanto ela é dividida em duas, pela distinção de gênero. Assim como os homens e mulheres do proletariado estão unidos em um estado de angústia existencial que esmaga o corpo e a alma, também devem estar unidos pelo ódio ardente ao capitalismo, com uma vontade mais confiante, mais ousada de lutar pela revolução. O Dia Internacional da Mulher Comunista não deve permanecer apenas uma manifestação de mulheres em qualquer país ou cidade, deve ser a expressão da vontade e do trabalho de todo o Partido Comunista, em todos os lugares. Isso deve apoiar o nosso Dia da Mulher com toda a sua força material e moral. O poder, o caráter, o teor, o objetivo de nosso Dia da Mulher devem tornar sua necessidade tão aparente e auto evidente quanto a existência de todos os partidos da Terceira Internacional.


Ousaremos esquecer que somos comunistas? O comunismo une! Nosso lugar é na luta contra o monstro capitalista, no trabalho e na luta pela construção do edifício ensolarado do comunismo, no qual todos encontrarão um lar para a maior humanidade, tanto homens quanto mulheres, assim como na luta para a humanidade completa, devemos lutar pelas coisas que dizem respeito aos homens, bem como às que dizem respeito às mulheres. Diante de nossos pensamentos e vontades está uma grande reunião de milhões de todos os explorados, os escravizados, os sofredores e os oprimidos e uma grande e sublime causa comum que chama à luta! Aqui o proletariado anseia por uma vida mais plena, ali a burguesia anseia por ouro e poder! Aqui o socialismo, o comunismo, que transforma as pessoas que criam e desfrutam da cultura em seres humanos plenos e felizes; lá o capitalismo usa as pessoas como matéria-prima para os lucros, as mancha, reduz seu padrão de vida, as aleija e as oprime. Com esta convicção, o Dia Internacional da Mulher quer conquistar as grandes massas para a luta pela causa do comunismo. Homens e mulheres sem distinção! A memória do feito glorioso das mulheres trabalhadoras de Petrogrado em 8 de março deve flamular sobre o nosso Dia da Mulher como uma bandeira brilhante que indica o caminho e incendeia nossa coragem. Além disso, como força de recrutamento para o Partido Comunista de cada país, para o comunismo, para a Terceira Internacional, a manifestação continuará durante a semana de 5 a 12 de março. Pois é levar a centelha de pensamento que estimula o ato de emancipação até as profundezas e até o recanto mais remoto habitado por pessoas cuja humanidade é moída pelo capitalismo em seu moinho de lucro.


Com esse objetivo em mente, nosso comício falará com voz de ferro sobre o que move o coração de inúmeras mulheres, sobre o destino de inúmeras mulheres. Falará também de labutas incansáveis e da amarga pobreza, de preocupações que consomem e da miséria sombria, de injustiças e de anseios ardentes implacáveis, de poder brutal e obstinado dos homens e da vontade revolucionária inflexível, ousada e desafiadora dos explorados e dos pequenos. O capitalismo não está atrás da mulher trabalhadora desde o amanhecer cinzento até tarde da noite, para espremer de sua carne e sangue – e muitas vezes com redobrada crueldade e inescrupulosidade – as riquezas com as quais deseja pagar por seus estragos na Guerra Mundial e por sua futura existência destrutiva?


O aumento do custo de vida, intensificado pela especulação e pelos altos impostos arrancam-lhe o pedaço de pão seco da boca. Seus ganhos ou os do seu marido estão diminuindo e nenhuma perícia, nenhuma habilidade a protege do desemprego. A jornada de trabalho é cada vez mais longa, o fardo, a tortura e o perigo do trabalho aumentam. Os patrões, insolentes e desafiadores sob a proteção do Estado, estão destruindo os escassos primórdios da proteção legal para a mulher proletária assalariada, para as crianças, os filhos e filhas pequenos dos trabalhadores. O capitalista explorador quer se manter no mercado e exige maiores lucros. Insensivelmente, ele espezinha toda consideração de que a operária, a dona de casa do operário fabril, escriturária, funcionária pública, artesã, pequena agricultora, é esposa, mãe e ser humano. E, sob esta sagrada fome de ouro do capitalista individual, existe hoje a consciência de toda a classe capitalista de que a existência de seu poder explorador e governante está em jogo.


Portanto, dinheiro em abundância para proteger e apoiar esse poder com baionetas e metralhadoras. Por outro lado, no que se refere à assistência social à mãe e ao filho, às instituições e medidas sociais que possam aliviar a sorte da dona de casa e da mãe, desgastada por duplas e triplas jornadas, pobreza absoluta. Por um lado, em nome da democracia, há privilégio e fortalecimento do poder para os ricos, mesmo que eles, como zangões, estorvem a sociedade. Por outro lado, há cerceamento de direitos políticos e sociais para as mulheres trabalhadoras, que com mãos e cérebros promovem o bem-estar e a cultura da comunidade. Presa também pelas correntes da escravidão sexual, a sorte da mulher trabalhadora, como vítima da escravidão de classe, é duplamente difícil. E se, no entanto, elas se atrevem a se rebelar contra essa escravidão, se seu irmão de classe se levanta contra eles, então a sociedade burguesa, com a morte respirando em seu pescoço, busca ajuda do Terror Branco, busca matar sua justiça de classe e o Terror Vermelho de seu exército de classe.


Tais são os efeitos do capitalismo moribundo, lutando desesperadamente contra a morte, que ditam as palavras de ordem do nosso Dia da Mulher. Desde a reivindicação de medidas imediatas e drásticas para baratear e garantir as necessidades básicas da vida, até o momento do controle da economia por conselhos de trabalhadores livremente eleitos sem distinção de sexo. Começando com as reivindicações de plenos direitos políticos e sociais para as mulheres e proteção social eficiente para elas e terminando com um apelo à anistia irrestrita para todos os combatentes revolucionários, homens e mulheres. Dependendo das circunstâncias históricas dadas em cada país, uma ou outra necessidade e demanda proletária é o ponto de partida ou particularmente enfatizado. Em todos os países, no entanto, as demandas individuais devem ser combinadas em uma vontade poderosa e confiante de lutar pela conquista do poder de Estado pelo proletariado e pelo estabelecimento de sua ditadura no sistema soviético. Nas terras dos vencidos e dos vencedores, assim como nos chamados países neutros, o capitalismo não mais castiga com os chicotes de seu apogeu, mas com os escorpiões de sua decadência. Os sofrimentos da classe produtora de uma nação tornam-se a dor das outras. Isso desenvolve e fortalece a determinação revolucionária internacional de lutar, e o grito de guerra revolucionário internacional, “Abaixo o Minotauro, o devorador de homens!” Nosso Dia da Mulher Comunista deve promover isso. A solidariedade internacional dos oprimidos e famintos de todos os países exige imperativamente uma expressão tangível atual – uma ajuda fraterna e abnegada para os famintos e ameaçados de morte na Rússia Soviética, luta determinada pela liberdade, e a própria existência da Rússia Soviética. Os imperialistas da França e da Inglaterra exigem como despojos de guerra uma parte enorme da riqueza que os capitalistas alemães extorquem do proletariado. Como compensação, eles querem permitir que Stinnes e Rathenau, barões da indústria alemã, participem do bem planejado saque e desmembramento da Rússia soviética. É para se tornar uma colônia para a exploração inesgotável do capitalismo mundial sob a administração alemã. O ódio mortal pelo único estado proletário do mundo permeia aqueles gananciosos por ouro e poder e o clã internacional de exploradores que têm fome de vidas. Pode este estado viver, pode desenvolver suas jovens forças, se a estrutura rachada e quebrada do capitalismo mundial só pode ser cimentada com o sangue e o suor de milhões de pessoas miseráveis, se só pode ser sustentada pelos ossos de gerações destruídas? Sua mera existência não é um lembrete contínuo para os escravizados para se livrarem do jugo de seus ombros feridos e de suas almas despedaçadas?


Os trabalhadores e camponeses da Rússia Soviética realizaram feitos imortais em luta heroica e no martírio silencioso. Sozinho, enfraquecido pela guerra civil, atacado por inimigos internos, o país não conseguiu em quatro curtos anos apagar a herança criminosa do czarismo e do capitalismo e compensar a falta de desenvolvimento econômico e cultural, que se manteve estagnado por séculos. E precisava daquilo que acelerasse e facilitasse a construção de uma vida nova e mais plena, a colaboração com outros estados proletários nos quais a revolução social desencadeou enormes forças criativas. A Rússia soviética foi forçada a retomar as negociações com o capitalismo que deseja erradicar. Esta ação não foi um fruto amargo dos “graves erros” de seu partido revolucionário, mas muito mais culpa dos proletários de outros países, sobretudo da Alemanha – que não ousaram pensar e lutar por sua liberdade.


O capitalismo que foi admitido na Rússia soviética deve permanecer o servo bem pago do proletariado e de sua república, e nunca deve se tornar o mestre comandante, o governante. O poder ainda está com os soviéticos e deve permanecer com eles. Proletários de todo o mundo, paguem sua tremenda dívida para com seus irmãos e irmãs russos! E vocês, mulheres trabalhadoras do mundo inteiro, façam o mesmo! Não é a Rússia Soviética o único país que clama e reconhece o trabalho da mulher em todos os campos, que protege e valoriza socialmente a maternidade, na medida em que a mulher é cidadã e tem direitos iguais? Mãos fora da Rússia Soviética! Abram caminho para a Rússia Soviética! Vamos ao enérgico desenvolvimento da Rússia Soviética! Portanto, a partir de nosso Dia Internacional da Mulher, deve rugir em todo o mundo o chamado para lutar contra a burguesia saqueadora de todos os países capitalistas.


As correspondentes internacionais dos Partidos Comunistas de muitos países europeus, em conferência conjunta com as representantes do secretariado das mulheres da Terceira Internacional, discutiram a implementação do Dia da Mulher. Em suas decisões, elas estavam de acordo com as ordens da Terceira Internacional. O Partido Comunista de cada país pode e não deve deixar de dedicar toda a sua força ao sucesso de nossa manifestação.


O Dia Internacional da Mulher Comunista começa em 5 de março, aniversário de Rosa Luxemburgo. A obra da vida e o bom exemplo da destemida e genial revolucionária, cujo corpo foi mutilado por mãos assassinas, mas cujo espírito vive imortal entre nós, será uma coluna de fogo para iluminar e nos mostrar o caminho. Em 8 de março de 1917, quando as mulheres tocaram o sino da Revolução Russa, os deputados das potências capitalistas se reuniram em Gênova para trazer o mundo de volta ao equilíbrio capitalista. O proletariado internacional deve responder à manifestação da contrarrevolução internacional com uma declaração de vontade e uma luta resoluta. E as mulheres lutarão com honra e glória nas primeiras fileiras da frente única revolucionária. Seu Dia Internacional deve construir uma forte força proletária se levantando contra a negociação contrarrevolucionária do poder capitalista e seus lacaios políticos. As mulheres ajudaram a pavimentar o caminho do cristianismo rumo à igualdade. As mulheres trouxeram o rei e a Assembleia Nacional de Versalhes de volta a Paris em 5 e 6 de outubro de 1789, no cortejo fúnebre da monarquia absolutista e do estado feudal e procissão triunfal da Revolução. As mulheres, em 18 de março de 1871, impediram o roubo da artilharia do povo parisiense pelos Guardas Brancos de Adolphe Thiers e deram o sinal para a Comuna. Nossos tempos difíceis, em que está em jogo a liberdade e até mesmo a mais simples existência dos proletários de todos os países, nossa grande época, em que a reação mundial e a revolução mundial estão se preparando para o conflito armado, não devem encontrar nenhuma mulher insignificante, nem corações iludidos, medrosos e fracos! Preparemo-nos para a luta! Entremos na luta com seriedade e sem medo!


Tradução de Elisa G. Stefanelli

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